CENA 1

– Quem é esta menina?

– Ah! Peguei para criar. Uma conhecida mandou do interior. Mora lá em casa e estuda de noite.

Este diálogo era muito, muito comum até bem pouco tempo. A situação foi ficando mais rara, mas acontece ainda. Muito. A última que testemunhei não tem 3 anos.

“Peguei para criar” traduz-se em importei mão de obra muito barata do interior. Sem nenhum tipo de vínculo, nem familiar, nem profissional, a menina, 12, 13 anos de idade, fica responsável por atender a casa, lavar, cozinhar, cuidar de crianças. E a “criadora” pode se dar ares de estar prestando um favor à menina que “pegou para criar”.

CENA 2

– Abre aí a bolsa! Vou revistar antes de você sair.

– Mas porquê?

– Moleque pega muita coisa do mercado.

Meninos que trabalhavam nas redes de mercados em Curitiba estavam expostos com muita frequência a esta categoria de diálogo.

Porque a criança é mais vulnerável e não sabe ainda com clareza até onde vão seus direitos. E porque, para falar a verdade, tem muito sádico disfarçado de bom moço por aí.

Eu creio que nossa sociedade é essencialmente escravista. Ela julga que o trabalho é para pobre, que tem que dar graças por trabalhar. Não existe a percepção de que o trabalho deve ser o provedor da dignidade do cidadão.

Ou seja, qualquer que seja a profissão, a colocação, o trabalho deveria garantir a dignidade ao trabalhador. Casa, comida, escola, saúde. Você estudou mais? Ótimo, vai ganhar mais. O médico mais do que a faxineira do hospital, ok. Mas a faxineira trabalha, logo merece uma vida digna. Assim o coletor de lixo, o professor, qualquer trabalhador. Utopia? Não. Há sociedades assim. Justas.

Da mesma forma com a criança. Nossa sociedade as vê de forma diferenciada de acordo com a classe social a que pertencem. É o filho do senhor do engenho e o moleque do quintal. Ainda. E me preocupa muito que, além de nossos vieses, ainda andamos importando outros. Podemos observar crianças que se enfrentam porque pertencem a escolas diferentes. Capazes que iniciar um confronto, apenas porque “são os piás da outra escola”.

Triste fazer parte de uma sociedade que é incapaz de cuidar de suas crianças. Incapaz de prover escola, comida e carinho. De compreender que humilhar, maltratar e até mesmo matar crianças é a prova maior do atraso desta sociedade brasileira. E de compreender que estamos recebendo de volta a violência. O mais cruel dos círculos viciosos.

São 3,4 milhões de crianças pedindo, se prostituindo, vagando nas ruas. Será mesmo que não somos responsáveis por elas?

Em tempo: trabalhar é bom, sim. Todas as crianças devem ter suas obrigações de acordo com a idade. Arrumar a cama, lavar alguma louça. Desde bem pequenas guardar os brinquedos. Isto constrói o caráter!

#semtrabalhoinfantil

Marina

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