Post faz parte da blogagem coletiva #naofecheosolhos

Ser vulnerável não é bom, nem ruim. Não é o que chamamos uma emoção negativa, mas nem sempre é uma experiência leve, positiva. Vulnerabilidade é a essência de todas as emoções e sentimentos. Sentir é ser vulnerável.

Vulnerabilidade é o ponto de partida do amor, pertencimento, alegria, coragem, empatia e autenticidade. Maior clareza em nosso propósito e maior profundidade em nossa vida espiritual passam pelo caminho da vulnerabilidade. (Brené Brown)

Somos vulneráveis e não sabemos como lidar com isto. Nosso medo maior é sofrer e, para evitar o sofrimento, criamos os escudos. Que nos protegem de todos os sentimentos, até dos bons. E chegamos a um ponto em que não podemos mais nos reconhecer.

E por que chegamos a este ponto?

Basicamente porque estamos sendo abusados. Desde pequenos. Sem querer, na melhor das intenções, não permitiram que vivêssemos plenamente nossos sentimentos. Deram risada de alguma coisa que dissemos. Debocharam de alguma coisa que fizemos. Naquele momento, poucos minutos, em que a criança que éramos pediu alguma forma de atenção, quis mostrar algum desenho, falou uma palavra errada e por um motivo qualquer não foi levada a sério. Lembra desta mágoa? Impossível não lembrar. Fomos submetidos a ela. Aquele riso para quem riu, não significou nada, mas para a criança marcou. E ela aprendeu a não mais se expor, para não sentir aquela dor outra vez.

Quando o pai falou mal da mãe. Ele estava nervoso, falou sem pensar, mas falou. Ou a recíproca. A mãe reclamou do pai, ou usou a criança para chantagear o pai. É abuso. Não é por mal. Os pais adoram seus filhos, mas eles mesmos não estão conseguindo se encontrar, estão inquietos, magoados. Criaram escudos enormes que estão entregando para os filhos.

A palmada, que é sempre por um motivo tolo. E sempre mais porque os pais estão nervosos do que pela atitude da criança. É um abuso.

Na escola, uma criança ri da outra que deu a resposta errada. Ora, ela aprendeu assim. Mas o outro sofre. Chora. Intimida-se. Foi abusado e está criando suas couraças.

A criança que não tem limite, que pode tudo. Os pais acreditam estar fazendo o melhor por ela. Dando liberdade. Na verdade, a leitura da criança é um sentimento de solidão, ela sente-se desprotegida. Não há alguém responsável por ela. Ela sente-se como nós, nos momentos em que estamos perdidos no trânsito e não sabemos para onde ir, não temos direção para tomar. Será uma criança insegura, agitada, infeliz.

Fazer pouco da opinião, xingar, humilhar, rotular…nada disto é brincadeira, e tenham certeza, nunca será esquecido. São violências diárias, silenciosas. Tristes.

Há situações mais extremadas, muito mais, e podemos nos colocar no lugar destas crianças se multiplicarmos milhares de vezes este sentimento de impotência que todos conhecemos. Colocar-se no lugar do outro é uma prática pouco utilizada. Faz parte de nossos escudos, de nossa auto-proteção. Porque conhecemos um pouco desta dor e não queremos enfrentá-la. Ainda que no outro, é tão horrível admitir que ela existe. Mas infelizmente, evitar a dor não é eliminar a dor. Se quisermos realmente construir este mundo melhor para nossos filhos, precisamos urgente nos despir, ficar vulneráveis, encontrar os caminhos do sentimento. Temos nós mesmos que sentir e darmos a oportunidade para que nossos filhos sintam também. Abrir os olhos e agir, cada vez que a oportunidade se ofereça. Denunciar, consolar e modificar as nossas atitudes diárias que contribuem para encouraçar quem mais amamos.

Neste link estão textos da Dra. Luci Pfeiffer que se dedica a esta causa e que pode ser de muita valia para reconhecermos uma criança que esteja exposta a este horror. Reconhecer é o primeiro passo para podermos ajudar, denunciar.

Acabo, citando Arnaldo Antunes:

“por favor, uma emoção pequena, qualquer coisa que se sinta. Tem tanto sentimento, deve ter algum que sirva.”

Tem, sim!

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