Por do sol próximo a Curitiba em 2008

Por do sol perto de Curitiba – foto da Luisa Piechnik

Quando eu saí de minha casa, há 9 anos, levei três meninas (5, 6 e 10 anos), alguns móveis, um monte de dívidas. As mulheres a minha volta me disseram: “você é corajosa”. Eu não entendi. Achei que a coragem teria sido ficar, porque estava tão ruim que ir embora me pareceu um alívio. Hoje entendo porque elas me acharam corajosa. Porque fui, mesmo. Né?

Uma amiga em situação parecida disse que se sentia como se tivesse uma caixa de abelhas na cabeça. O zunido era tão alto que ela não conseguia distinguir nada. Hoje eu entendo. E percebo quanto tempo levou para eu voltar a me entender, a me reconhecer. Pensando nisto tudo eu lembrei deste poema:

Na primeira noite, eles se aproximam e colhem uma flor de nosso jardim.
E não dizemos nada.
Na segunda noite, já não se escondem, pisam as flores, matam nosso cão.
E não dizemos nada.
Até que um dia, o mais frágil deles, entra sozinho em nossa casa, rouba-nos a lua, e, conhecendo nosso medo, arranca-nos a voz da garganta.
E porque não dissemos nada, já não podemos dizer nada.

– Maiakovski, poeta Russo.

É tão verdade este poema. E cabe tanto no cotidiano, independente de gênero, de idade, de cor. São pequenas coisas das quais vamos abrindo mão, deixando ir, e, em determinado momento não nos encontramos mais.

E quando a gente percebe, vê que estava sofrendo em silêncio. Um silêncio estranho. Um silêncio de nós mesmos. E a gente já nem se conhece mais. Não sabe bem o que gosta, o que quer. Todos os sentimentos ficaram misturados.

Acontece nos casamentos, porque ao longo do tempo a gente vai abrindo mão disto e daquilo. Hoje porque não quer discutir, amanhã porque está se sentindo enfraquecida. Acontece na criação dos filhos, nos dois sentidos. Os pais que vão abrindo mão em favor dos filhos e os filhos que, por não terem maturidade e autonomia, se entregam em relações doentias com seus pais.

E como as coisas vão acontecendo lentamente, a cada dia, a gente não vai percebendo e vai caindo nas armadilhas. Da vida, do destino, da gente mesma.

Até que um dia… ou a dor é tanta que você decide se rebelar. Ou a dor é tanta que você decide se acomodar. Eu acho que esta nossa vida precisa de muita atenção. Atenção com você mesma, atenção com seu companheiro, atenção com seus filhos. Não vamos nos deixar (auto)enganar.

Marina

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9 Responses

  1. Sabe Marina, eu penso muito nisso, penso sempre se estou feliz ou somente acomodada. Com 3 filhos e um casamento de oito anos, sempre penso e repenso, o bom disso é que concluo que sou feliz. E tenho ido a luta e sendo corajosa, porque as vezes é preciso dizer não, não para o marido, para os filhos e para certas convenções, as vezes precisamos nos encontrar, para nos libertarmos de amarras invisíveis que podem gerar uma violência velada.
    Adorei o texto me fez pensar, beijos 1000

    • Oi Cynthia,
      Obrigada por seu comentário! É verdade, dizer não é um ato de coragem. E para ser feliz é preciso ter esta coragem.
      Um grande beijo para você!

  2. Super eu… O tempo passou e, qdo vi, tava sem vontade alguma de viver; juntando os antidepressivos, os estabilizadores de humor e quetais pra tomar td de uma vez só e morrer pq nada mais fazia sentido. Daí venho o instinto de sobrevivência e me separei. E muitos me chamam de *corajosa*, pq né, ñ trabalho fora e tenho 4 filhos, 3 pequenos. Mas tá joia. Agora vivo. 😉

  3. Com um ano desde que saí da casa que já não era mais minha vejo que ainda estou me reencontrando, e como é difícil. E como é difícil não ter mais o próprio casamento para me esconder, pq agora não dá mais, o jeito é viver! E como é bom né? Estou aprendendo como é bom e alegre viver!

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