Histórias de partos

Histórias de partos

Aos 50, estou na metade. Posso observar com mais isenção e menos paixão as mamães gestando e cuidando de suas crias, decidindo sobre nascimentos, partos, papinhas, escolinhas. Todas as dúvidas que eu tive também, embora em um mundo completamente diferente, há 20 anos.

Já posso respirar aliviada, minhas filhas estão adolescentes, já pude mensurar alguns resultados do meu trabalho de mãe até aqui! Já entendi que a gente supervaloriza muita coisa, e que se preocupa muito mais do que deveria.

Uma coisa, porém, eu tenho como certa. Temos que ouvir nossa voz interior, atender a nossa intuição acima de tudo e, preferencialmente, que a gente nunca tenha que dizer “eu gostaria de ter feito“. Se quer fazer, está certa do que quer, faça.

A maternidade é complicada porque não conseguimos a experiência. Com 1, 2 ou no máximo 3 filhos como temos hoje, não seremos nunca experts. Resta ouvir o coração e conhecer histórias. E principalmente, não acreditar em tudo o que se ouve. Vá sempre fundo, pesquise muito, converse antes de decidir qualquer coisa. Desconfie de quem tem o poder.

Vou contar a minha experiência dos nascimentos das 3 filhas. O que foi bom para mim, talvez não seja para você, mas é sempre bom conhecer uma história.

Eu optei por partos normais, sem analgesia. Há 20 anos esta era uma opção meio maluca. Era o boom das anestesias, a moda da peridural. Sentir dor no parto era coisa de “bicho-grilo” – o nerd da época. É… eu! Estava surgindo o alojamento compartilhado: o bebezinho no quarto junto com a mãe, e foi esta a minha opção. O comum na época era o bebê ficar no berçário e as enfermeiras traziam para amamentar, amarradinhos como múmias. A justificativa era que “eles ficam mais seguros“. Ok, preferi que as gurias ficassem inseguras, mas não fossem mumificadas já ao nascer. Mas imagino que mumificadinho fica mais fácil o trabalho da enfermagem.

Meu primeiro parto não foi o que eu queria. Foi normal – mas induzido – e precisei de um fórceps de alívio. E por causa de outra justificativa: “está demorando muito para nascer“. Hoje eu tenho certeza absoluta de que este argumento foi inventado pelo obstetra para evitar um parto no período do carnaval. Como eu sei? Porque tive mais 2 partos! A experiência veio depois. Mas na hora, com tantos sentimentos em jogo, a gente se dobra e sucumbe ao poder. E eu me arrependo. Mas naquele momento, como saber?

Os dois partos seguintes eu fiz de cócoras. Outra vez: “que loucura! Parto de cócoras causa prolapso, derruba tudo!” Coisa de bicho-grilo. Pois é… Eu! Sei não… até hoje não ouvi relato de que isto fosse verdade. Mas, claro, é um procedimento diferente do padrão, desvia pacientes do hospital. Tira o poder do médico e sua equipe.

A obstetra me orientou que caminhasse (não fiquei fechada na salinha de pré-parto! Imagine a maravilha!) disse que se eu quisesse tomasse banhos, e ao sentir contrações que me agachasse.

O resultado foi dois partos rapidíssimos. A sala de parto toda diferente, meia luz, sem cama, só uma cadeira (desenvolvida pelo Dr. Paciornik, que foi o mentor deste tipo de parto), o pai presente na sala. Saí com o bebê no colo, as duas vezes, levei para o quarto comigo, sem aspirar, sem amarrar, sem mumificar! E olhe que a minha filha mais nova nasceu com 4,200kg!

A minha experiência me permite dizer: entre um parto deitada e um parto de cócoras, o segundo é extremamente mais confortável, menos dolorido e vai propiciar uma experiência muito mais humana tanto para a mãe como para o bebê. Sem luzes, sem panos, sem gentarada que a gente nem conhece.

Só sinto que o Hospital Paciornik tenha sido fechado. Não sei se tem algum obstetra trabalhando com a técnica ainda. Se acabou é realmente uma pena! Vai significar que Eles venceram e o sinal está fechado para nós, que somos jovens!

Marina

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