O menino dos cabelos longos

 

Cada pessoa tem características únicas. Em algum momento da vida, elas deverão identificar estas características e assumi-las, e passarão a se sentir muito bem com elas mesmas. Estas escolhas podem gerar resistência do grupo, da família, dos amigos. Mas aquilo parece tão certo que a resistência e as opiniões vão para um segundo plano. Afinal, cada um é o que é.

Quando você é um adulto e resolve que sua vida precisa ser diferente para que você se encontre, as consequências dos seus movimentos é sua. Seja qual for a característica que você vai assumir: pintar seus cabelos de azul, deixar seus cabelos muito longos se você for um rapaz, cortá-los bem curtos se for uma moça, fazer tatuagens, usar roupas de uma só cor, deixar de fazer as unhas, ou usá-las muito longas. Enfim, fazer coisas que deixam você feliz, mas atacam o padrão e colocam medo naqueles que sentem-se vulneráveis perante sua audácia.

Para fazer isso você vai precisar de alguma coragem. Ou não. Vai, talvez, simplesmente ignorar o resto e viver feliz.

Mas, eventualmente você terá crias que não se adaptam ao padrão. E é nesse momento que o coração aperta.

Não é porque você quer que sua criança se adapte aos padrões. Muito pelo contrário. O que você quer é garantir que ela tenha o direito de se expressar. Só que você já sabe o custo disto, e sabe da oposição que sua criança vai encontrar. E rejeição. Críticas. Aquelas todas que você nem ligou quando eram para você. Mas agora são para sua cria, e por isso elas começam a incomodar.

Desde o olhar atravessado da vendedora da loja, quando a criança escolhe um produto que não está definido como padrão para seu gênero. A crítica da avó, porque a criança estava brincando com maquiagem e tem o rosto todo sujo de batom. A senhora do parquinho, que nunca vimos antes, mas está certa de que sua criança não devia subir a escada do escorregador com tão pouca idade. O mundo estará cheio de críticos.

Seria muito mais fácil simplesmente adaptar esta criança. Por que não repetir o refrão? Carrinho é brinquedo de menino, menina brinca de boneca. Menino não usa cabelo comprido. Rosa é para menina, azul para menino. Sem sofrimento, sem agonia. Seria mais fácil. Mas a gente não consegue. Amarra a garganta.

É preciso coragem. Para assumir de verdade o que pensamos, mas principalmente, e ainda mais, para permitir de verdade que os outros assumam o que pensam. Coragem para ser o apoio e o suporte quando houver necessidade.

Foi assim com esse lindo da foto. Ele adorava seus cabelos longos. Você pode gostar, também. Ou pode não gostar. Mas sejamos sinceros: não é absolutamente da sua conta. A única opinião pertinente é a do dono dos cabelos. E o ponto a ser discutido é o respeito que temos que ter em relação a opinião dele.

Para garantir ao filho o direito de ter uma opinião, e mantê-la, serão necessárias algumas “saias justas”. Está ouvindo? “Credo… mas que cabelão! Um moço com um cabelo desse” ou “precisa cortar esse cabelo, parece uma menina”. Eu estou ouvindo isso e outras coisas mais. Volto lá no início do texto: se o cabelo fosse do adulto, da mãe, as “observações” seriam ouvidas e mais nada. Mas para quem cuida da criança, cada frase desta vem como um soco no estômago. Porque a criança está ouvindo e não é isso que a gente quer que nossos filhos ouçam. Está vendo? A forma como a criança abaixa a cabeça quando ouve uma observação deste tipo? Eu estou. Já estive lá. É muito chato.

Nosso personagem, real, acabou por cortar os cabelos, como vocês viram na foto. Porque outra pessoa influenciou e convenceu. Acabou o problema. Ajustou-se ao padrão. De quem foi o ganho nesta história?

É a mesma coisa com nossas roupinhas sem diferenciação de gênero. Não queremos que os pais vistam seus filhos com saias. Queremos que todas as pessoas respeitem se algum menino quiser vestir saias. E que ele possa vestir e andar por todos os lugares com orgulho por que escolheu e que seja respeitado em suas opiniões.

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