Mão de bebêPorque há uma certa magia em ser mulher, há uma aura de mistério, intuição e sentimento que não se podem explicar. Aliás, há muito que uma mulher não consegue explicar. Dores, tristezas, alegrias, repentes, que todas temos e não sabemos dizer o porquê. E, acima de tudo, há a maternidade. Esta nos transforma, transfigura, desconstrói e constrói novamente.

Ontem, navegando pelas internês da vida, deparei com o texto da Isabela Kannup: Mãe também é gente! E o texto dela foi como uma avalanche de sentimentos para mim. E me senti cercada por muitas mulheres.

Primeiro lembrei da Marisa, que é uma mulher que agrega. Agrega pessoas. E ela reuniu um grupo de mulheres para conversar sobre o que sentimos. E trouxe textos de Clarissa Pinkola Estés. Clarissa é outra mulher que me acompanha, e volta e meia eu me deparo com ela, com seus textos, com suas ideias. E não me canso de gostar. Depois lembrei da Yumie dizendo: “eu sinto como se tivesse um hiato em minha vida, que é o tempo em que estive cuidando de minha filha”. Eu também sinto este hiato. E lembrei da Roberta. Que gravou para mim um CD do Caetano e do Chico (gente! um CD) e ouvir aquele CD me trouxe de volta a um mundo meu. Dos meus gostares e dos meus ficares. De lembrar que mãe também é gente.

Mas por que todas estas lembranças? Por causa desta história que lemos juntas em nossas reuniões e que serve perfeitamente para os sentimentos que a Isabela  está sentindo e que vai servir (acreditem) a todas as mães em um determinado momento de suas vidas. Eu conheci esta história através da Clarissa, facilitada pela Marisa, alertada pela Yumie e presenteada pela Roberta. Mulheres, cerquem-se de mulheres e encontrem suas histórias.

O pescador e a mulher-foca

Era uma vez, num mundo tão distante quanto nos parece o Céu, à primeira vista, havia um homem muito solitário. De tão sozinho, ele já nem se lembrava como era a voz de um ser humano de verdade.

Ele construiu o seu iglu no lugar mais inóspito daquela vastidão gelada, onde, por longos e longos dias, o vento era o seu único e inseparável companheiro. Quando não encontrava caça em terra firme, o homem preparava o seu caiaque e aventurava-se nas águas frias para pescar o seu alimento, remando, habilmente, entre os labirintos formados pelas esculturas que o vento e o mar esculpiam, há milênios, nos gigantescos blocos de gelo.

Numa longa noite invernal, sob a claridade prateada da lua, o homem voltava de sua pescaria satisfeitíssimo, pois tinha o caiaque abarrotado dos peixes que, nesse dia, o mar lhe ofertara de bom grado. De repente, ao aproximar-se da praia, o vento levou-lhe aos ouvidos, o som de risos e vozes femininas. Elas cantavam e sussurravam numa língua que, misteriosamente, ele compreendia.

Estupefato, ele remou na direção daquelas vozes, sem imaginar o que encontraria pela frente. Então, ao observar as pedras que sempre soubera reconhecer no escuro, viu, sobre elas, os vultos das mulheres mais bonitas que, em sua solidão, jamais havia visto, ou, pelo menos, sonhara ver, um dia.

Aproximando-se lentamente, o homem reparou que, em dado momento, elas começaram a vestir uma espécie de roupa, ou melhor, uma espécie de pele. Olhando mais atentamente, ele teve a certeza de que, em verdade, elas vestiam uma pele de foca, e, ao fazerem isso, transformavam-se, imediatamente, em lindíssimas focas cinzentas, que saltavam na direção do mar, e desapareciam entre as ondas que brilhavam sob o luar luminoso.

Então, sem conseguir explicar o que o motivava a agir dessa maneira, ele saltou de seu caiaque, prendeu-o nas pedras, silenciosamente, e, mais rápido do que fazia quando queria atirar os seus laços para caçar uma ave em pleno voo, agarrou a pele da última mulher (aliás, a mais bonita e com a mais bela voz), e, como uma sombra, escondeu-se entre as pedras.

Enquanto todas as companheiras já haviam desaparecido nas águas do mar, a última mulher procurava a sua pele de foca, sem entender por que não a encontrava em parte alguma. Então, a sós, o homem saiu de seu esconderijo e disse-lhe:

– Mulher, tenho o que procura. Sua pele está aqui, comigo.

Assustada, ela quase atirou-se ao mar, esquecida de que, se o fizesse, sem a sua pele de foca, morreria afogada, no mesmo instante.

– Não se assuste, vou te devolver – assegurou o homem. – Pode ser agora, pode ser depois. Por favor, me ouça!

A mulher-foca nada respondeu, mas, ao olhar para dentro daqueles olhos tão doces e tão profundos, olhos que jamais vira em sua vida no fundo do oceano, seu coração encheu-se de amor.

– Fique comigo – disse ele, com a voz embargada de emoção. – Sou forte. Caço e pesco para uma família inteira, e nunca tenho com quem compartilhar. Com o meu amor, nada nos faltará, eu prometo.

– E minha pele? – perguntou a mulher-foca (mas somente depois que já havia decidido).

– Ela é sua – respondeu o homem. – Apenas serei o guardião. Devolverei quando me pedir.

Assim, encorajada pela promessa da devolução a seu critério, a mulher-foca casou-se com o pescador e, juntos, viveram uma vida plena, amorosa e cheia de luzes. Tiveram dois filhos: uma menina, que sabia cantar como as baleias, e um menino, que sabia nadar como os golfinhos. Durante sete anos, a mulher-foca viveu completamente realizada em sua vida fora das profundezas do oceano, e, durante esse tempo, nem se lembrou, por um dia que fosse, da existência de sua pele de foca.

Ela adorava alimentar sua família; sentia prazer em costurar roupas quentes para eles; gostava de fazer pentes bem polidos, para desembaraçar, delicadamente, os cabelos de seus filhos e sentia uma ternura imensa quando trançava os longos cabelos de seu marido; amava cantar e contar histórias do fundo do mar, para eles; e nunca via o tempo passar, quando o marido lhe ensinava as artes da caça e da pesca, na superfície.

Ele fez presentes para ela: um par de laços para caçar aves durante o voo e um par de pedras polidas, para fazer fogo. Assim, entre um e outro aprendizado, entre uma e outra canção, o tempo foi passando sob o sol, o vento, a neve, as estrelas, a lua, a aurora boreal; enfim, o tempo foi passando, com a força da Natureza em todo o seu esplendor, fora das águas profundas.

Porém, passados os primeiros sete invernos, a mulher-foca começou a adoecer. No começo não se preocupava porque era, na opinião dela mesma, coisa à toa: às vezes sentia falta de ar; às vezes não sentia fome; às vezes sentia a vista ofuscar. Como passava depressa, decidiu não preocupar o marido, muito menos os seus filhinhos, pois os amava muito mais do que a si mesma. No entanto, as indisposições tornaram-se frequentes e indisfarçáveis: os cabelos começaram a cair; a voz, antes límpida e cristalina, ficou roufenha; as mãos endureceram; a vista não distinguia mais, nem de longe nem de perto, a diferença entre uma pequena duna de neve e um urso branco, descansando. Em seus sonhos, ela não se encontrava mais com a sua família do fundo do mar, e passou a ter pesadelos horrendos; por causa disso, não gostava mais de dormir.

Muitas vezes, a mulher-foca perambulava pela praia gelada por horas a fio, quase se arrastando. Para disfarçar a sua dor, ela aproveitava a passagem do vento para soltar o seu lamento gutural, sofrido e desesperançado:

– Aaaagraauuuuaaaauuuuu!!!! Arrrauuuuaaaaauuuuuu…

Depois, cambaleando, voltava para junto daqueles a quem amava mais do que tudo, e adormecia, exausta.

Em suas andanças, sem o saber, a mulher-foca era observada por dois seres que a amavam, profundamente: seu marido, em terra firme; e sua mãe, através das águas puras do oceano.

Um dia, a mulher-foca esqueceu-se de voltar. Ela adormeceu em algum ponto da praia gelada e, assustada, correu pela tundra em flor, quando acordou. Ao chegar nas proximidades de sua casa, ela ouviu o riso de seus filhos, misturados à voz de seu marido, e sentiu o seu coração inundar-se com a ternura mais funda. Ao aproximar-se um pouco mais, imediatamente, sentiu um cheiro familiar. Apressou os passos, e, quando entrou, viu o marido brincando com suas crianças, em plena algazarra, enrolando-se numa pele cinzenta, brilhante e cheirosa: era a sua pele de foca, intacta!

Lembrou-se. E lembrou-se de tudo! Num átimo, sua vida oceânica veio-lhe à tona. Como pudera adormecer dessa maneira?

Suas crianças riam. Seu marido ria e chorava.

– Vai, meu amor – disse o homem, serenamente. – Mas volte. Aqui também é teu lar.

Ela sentiu-se tremer. Sua pele de foca, agora, tinha o cheiro de seus filhos e do homem a quem amava, misturados ao seu. Profundamente comovida, vestiu-se. Sussurrou segredos nos ouvidos dos filhos. Sussurrou palavras de amor no ouvido do marido. Caminhou até o mar. E entrou. Mergulhou. Partiu.

 

Marina

 

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2 Responses

  1. Esse livro é simplesmente maravilhoso. Se alguém quiser dar um presente para uma grande amiga, essa é a sugestão: “Mulheres que correm com os lobos”, de Clarissa Estés.
    Beijos,
    Marusia

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