As assassinas. Tranquilamente tomam o ar da noite na janela, observando estrelas

As assassinas. Tranquilamente tomam o ar da noite na janela, observando estrelas

Estou sendo assassinada. Lenta e tragicamente torturada e assassinada. Não, não há nada que você possa fazer para me socorrer. Não há saída. Estou chegando ao fim. Mas, a grande tragédia é que estamos todas. Não se iluda. Você também! E morremos felizes, o que é um alento, afinal de contas.

Esta morte é demorada e necessária. Começa no dia em que nasce o rebento. O primeiro ataque vem quando ele começa a comer e sentar. A mãe está feliz, radiante, mas lá no fundo tem algo que atormenta. Como uma pequena pedra no sapato. Como um cortezinho no dedo. Mas ela está feliz e segue. Sorri. Mostra aos amigos. Posta a fotinho. A cria, em seguida começa a andar, desmama, fala. Nem sempre fala “mamâe”, mas fala. Esse progresso enche a mãe de orgulho, mas é um golpe. Se está tão feliz, como explicar esse apertozinho no peito? Sim, querida mãe, você está morrendo.

Agora, nada se compara à escola. Ahh! este, sim. Este momento é uma facada. Profunda. Agora já nem dá para esconder. Ela sai em lágrimas. A dor é demais. Morta. Vem o dia em que a carne de sua carne vai dormir fora. Uma noite inteira. Inteirinha. Já dormiu na vó, aquela vez que tinha uma festa. Mas esta vez não vale. Foi escolha da mãe que a cria dormisse na vó. Desta vez é a cria que escolhe. Quer dormir em outro lugar. Não importa onde, a sensação é a mesma: “Como? Como? Não sou mais necessária?” Acredite. Nem todas conseguem superar. Conheço casos que passaram a noite rodando a quadra da casa onde estava a criança. Vai que durante a noite precisa da mãe!

Tomam banho sozinhos. Vestem-se. Tem seus amigos. Mas a mãe não abre mão. Verifica se estão comendo, se fizeram a lição. Não, não… estou aqui e vivinha da silva, ela quer acreditar.

Chega a adolescência. Esta fase é difícil. É duro. Aí a coisa fica explícita! Agora já não é mais uma sensação. Mãe, morra! Morra porque eu preciso crescer! E este é o início do processo de individuação. Serão adultos. Irão embora. Mãe, morra! Deixe eu ir. Já sei, melhor do que você, tudo o que preciso.

Esta morte é simbólica, claro. Mas é mesmo dolorida e tão necessária. A mãe achava que seria tudo na vida da cria… Mas a cria precisa superar a mãe para ser um indivíduo, uma pessoa. E o que é mais cruel, mãe. O requinte da tortura. Quanto melhor você fizer seu trabalho, mais fácil será para a cria matar você. Quanto mais autônomo e mais feliz esse serzinho for, mais tranquila será a desacoplagem… para a cria, é claro.

E você? Morre feliz!

Marina

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