Estereótipo e preconceito

Uma vez eu fui na casa de uma amiga e estacionei na garagem do prédio. De repente, bateu o interfone. Ela atendeu e voltou meio sem graça, dizendo que o marido tinha chegado e que precisava da vaga. Eu me despedi, desci pelo elevador, quando abri a porta ele estava me esperando muito empertigado, e disse em voz bem alta: essa vaga é minha! (Eu sou uma pessoa um tanto fleumática) Respondi: pois não, vamos devolver sua vaga. Mas de fato não me intimidei, nem com a postura (sabe essa coisa de empertigar para parecer maior e dar medo), nem com a voz elevada. Fui embora.

Porque, na verdade, aquela pessoa não tinha nenhuma relação comigo e eu não podia esperar dela nada: nem de bom, nem de ruim. Mas pensei na minha amiga. O quando o marido desrespeitou a minha amiga. Afinal, eu era convidada dela! Eu não entrei e invadi a garagem do prédio.

No entanto, toda esta atitude presunçosa está muito bem respaldada. Nos estereótipos. O homem que manda, o homem primeiro, a mulher tem mais jeito, a mulher se adapta.

Na escola em que eu ensinava, as meninas queriam jogar futebol. Separaram um dia para as meninas e quatro dias para os meninos. Porque menina não joga futebol. Esporte é masculino. Devia ser todo mundo junto. Crianças jogando futebol. Mas, se uma menina entra em campo, um já olha para o outro, um terceiro dá uma risadinha.

Se as meninas estão brincando de casinha, os meninos não podem entrar na brincadeira. Menino é bruto, não sabe brincar com coisas organizadas. Devia ser brincadeira de criança. Devia mesmo, até os estudos mostram: adolescentes acompanhados por vários anos demonstram que melhor resultado vai ser encontrado em um ambiente em que as crianças brincaram todas juntas, independente de gênero.

A foto deste post é maravilhosa! Uma menina jogando futebol. Ela entrou em campo, simplesmente. Nem reparou se tinham mais meninas, se os meninos eram maiores que ela. Esse deveria ser o comportamento padrão, não deveria? Com este sentimento a gente devia entrar em campo sempre. É em criança que se aprende isso.

E se aprendermos direitinho, naquela reunião de trabalho em que a maioria são nossos colegas de gênero oposto, não haverá mais olhares atravessados. No dia em que circularmos em um restaurante, aquele grupinho de pessoas não vai dizer alguma besteira quando passarmos ao lado. Aquele chefe pode até tentar gritar, mas os subordinados vão saber que não se pode sair gritando com os outros. Precisamos deixar os estereótipos de lado apenas porque eles nos limitam e dão formas de poder errada para pessoas erradas.

Não obedecer estereótipos não significa que menina não possa brincar de casinha, ser cozinheira. Significa que qualquer criança pode brincar de casinha. Não significa que menino não pode brincar de carrinho e ser campeão. Pode, sim, claro! Mas meninas também podem. Qualquer criança pode ser campeã. Não precisa reforçar que este é o lugar do menino.

Não será fácil, porque estão todos muito enraizados em nosso inconsciente. Mas aos poucos teremos que nos livrar deles. É urgente, porque o estereótipo está muito perto do preconceito.

Faça isso em sua casa. Deixe que sua cria vista, brinque, leia as coisas que ela prefere. Sem estereótipos. Não existe coisa de menina e coisa de menino. Existem coisas de criança.

 

 

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