Educação contra #trabalhoinfantil

Parece tão óbvio que a escola tenha um papel importante no enfrentamento do trabalho infantil. Daquela obviedade que nos deixa sem palavras e com raciocínio fraco. Passei algum tempo para elaborar os argumentos e confesso que nada caía no papel (ou na tela). Estava assim, pensando, pensando até que minha atenção foi captada por um programa de entrevistas na televisão.

E as minhas argumentações vieram todas na voz do entrevistado. Sabe, quando alguém nos tira as palavras da boca? Fiquei maravilhada com esta pessoa. Vou recontar a história que ele contou. Esta é a história real de Sebastião dos Santos, e é muito representativa de quanto a educação pode interferir no destino de uma pessoa.

Um guri de 13 anos, que frequentava a escola, morador de uma comunidade no Rio de Janeiro. O menino enxergava a vida pelos seus olhos e pelos olhos da mãe e achava tudo normal. Sentia-se “dentro da curva”. Mas tudo mudou da noite para o dia. A mãe falou na televisão que trabalhava no lixão. Fato que era desconhecido de todos até aquele momento. E falou com orgulho. Orgulho da tarefa que exercia. O menino Sebastião não teve mais paz na escola. Passou a ser perseguido, marginalizado. Tal foi a pressão que sofreu, acabou por desistir.

Fora da escola, foi trabalhar. Dos pequenos trabalhos foi ao tráfico, em busca de maior aceitação e visibilidade. E acabou ele próprio no lixão. Fechado o círculo.

E fechado o lixão. Ele passa a catar lixo nas ruas.

O primeiro capítulo já mostra a dicotomia: escola – trabalho. E as razões para evasão de tantos meninos e meninas são numerosas. Mas eu gostaria de ir um pouco além. Eu gostaria de considerar a educação além da escola.  Então, vou continuar a contar a história.

Aconteceu que Sebastião foi selecionado para participar de um curso. E neste curso ele teve contato com ideias absurdamente novas e desconcertantes. Ele estudou filosofia e política. Ele teve contato com outros pontos de vista. E ouviu falar em reciclagem, e entendeu a diferença entre lixo e material reciclável. As palavras dele:

“eu vi aqueles intelectuais falando de reciclagem – eu nunca tinha visto meu trabalho com tanto respeito”.

O conhecimento causou o primeiro desvio na cabeça e na atitude de Sebastião. Ele sentiu-se no direito de questionar, perguntar, tentar entender. O que conta mesmo é a primeira parte da frase anterior: ele sentiu-se no direito.

Essa noção de cidadania, de pertencimento, de valorização é vital para dar a qualquer individuo a possibilidade de realizar. E é covardemente negada a uma grande parcela da nossa população. É covardemente escondida de uma grande parte de nossas crianças. E até mesmo a escola é omissa neste ponto.

Não é a pobreza que põe o indivíduo na margem. Mas, sim, o fato de ignorar seu real papel na sociedade em que vive. É disso, essencialmente que nossa nação carece. De respeitarmos os valores de cidadania. A mudança deste padrão vai criar as oportunidades para que nós, cidadãos, possamos dar início a um círculo virtuoso em que os pais de nossas crianças acreditem em um futuro melhor, em que nossas crianças possam permanecer na escola. Precisamos reconhecer que todos, e cada um de nós, construímos o futuro do nosso país. E para que isso aconteça temos que entender que qualquer pessoa merece respeito, que todos que nascemos neste país somos iguais, que temos direitos e deveres, independente de nossa posição social.

Muito mais aconteceu na vida de Sebastião dos Santos. Concorreu a um Oscar, escreveu um livro: Do Lixão ao Oscar. Mas aqui, para meu propósito, fico satisfeita em terminar este texto emprestando novamente a sua voz:

“meu maior desafio não foi lutar com o poder público para garantir o direito dos catadores de papel, mas sim conseguir colocar na cabeça dos meus amigos que éramos portadores de direitos. Não apenas por sermos catadores, mas por sermos cidadãos brasileiros.”

Publicado originalmente em: https://mrmkt.com.br/educacao-contra-trabalhoinfantil/#more-158

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