Tem mulheres na história do carnaval? Bem mais do que a gente pensa! Mulheres estiveram sempre envolvidas na folia e posso provar.

Põe a máscara, a fantasia, pega o confete e vem comigo!

A primeira mulher da nossa lista é Chiquinha Gonzaga. Em 1899 ela compôs a marcha Ó Abre Alas, a pedido do cordão Rosa de Ouro. Chiquinha fez muitas primeiras coisas, inclusive esta música, que é considerada a primeira marcha carnavalesca do Brasil.

Ó Abre Alas

O Rosa de Ouro era um cordão carnavalesco do Rio de Janeiro e Ó Abre Alas até hoje nos emociona com uma letra tão cheia de poder: abre alas que eu quero passar! Eita, que eu sou muito fã dessa Chiquinha!

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Vamos para 1916. Vamos falar de alguém que foi descrita na época, por João do Rio, como “uma negra baixa, fula e presunçosa”, “uma das feiticeiras da embromação” (conta Lira Neto em Uma História do Samba – livro que, aliás, recomendo!).

Tão mal falada assim, já começamos a desconfiar que a tal mulher era muito gente boa! Hilaria Batista de Almeida, a Tia Ciata, era mãe de santo, quituteira e uma grande liderança comunitária. A sua casa, na Praça 11, abrigava, além do terreiro Nagô, todos os que precisavam de um abrigo e também a turma da batucada.

Numa destas batucadas foi composta a música que é considerada o primeiro samba a ser gravado no Brasil: Pelo Telefone. Donga ficou como autor, mas ao que parece foi uma autoria coletiva de que Tia Ciata também participou.

Pelo Telefone com Donga

Cadê a serpentina? Ai, ai, ai deixa as mágoas para trás, ó rapaz! Ai, ai, ai fica triste se és capaz…

Isso tudo acontecia no Rio de Janeiro. Que tal sambar um pouquinho mais para o nordeste? Nos anos 20 inicia-se uma tradição em Pernambuco que mantém-se até hoje! São os coros femininos nos Blocos Líricos.

Os coros femininos tiveram origem quando as mulheres começaram a participar do carnaval de rua, antes apenas masculino. O primeiro deles, Clube Misto Vassourinhas foi criado por várias mulheres no final de 1889. A crise financeira, força os foliões a deixar os clubes e eles precisam de um lugar para brincar o carnaval. A música nos blocos lembra a marchinha, mas é acompanhada pela banda de pau e corda, típica da região, e chama-se frevo de bloco.

Hoje, as mulheres tem uma participação muito expressiva no frevo pernambucano. Não apenas no frevo de bloco.

Frevo de bloco nos dias de hoje

Mas… será que tem como falar em carnaval sem lembrar de Carmem Miranda? O primeiro grande sucesso de Carmem pode ser ouvido até hoje nos carnavais, a marchinha Taí, que na verdade tem o título ‘Pra você gostar de mim’. Foi composta por Joubert de Carvalho, a pedido do gerente de uma loja de discos. No momento em que ele comentava sobre a nova cantora muito talentosa, Carmem entra na loja. O gerente diz “Taí, a cantora”! Foi a inspiração de Joubert.

Quando Joubert entregou a música, e resolveu orientar a interpretação da cantora, ouviu de Carmem: “Não precisa me ensinar, não, que na hora da bossa, eu entro com a boçalidade.”

Carmem Miranda. Taí a bossa toda!

Vou contar para você que a Carmem Miranda tinha uma camareira, e esta camareira tinha uma filha, chamada Emilia. Emilia adorava cantar, e embora a mãe não aprovasse, participava dos programas de calouro e dos concursos de música.

Por fim, com a ajuda de Carmem, ela se tornou a famosa Emilinha Borba, e chegou ao posto de Rainha do Rádio.

Emilinha Borba foi quem gravou Chiquita Bacana, de Braguinha, aquela que “existencialista, com toda a razão, só faz o que manda o seu coração”. A brincadeira com o existencialismo de Sartre, Camus, Simone de Beauvoir, tão em voga na época, tornou a música famosa e gravada em vários idiomas.

Chiquita Bacana acabou até por ter uma filha, que puxou a mamãe e entrou para o women’s liberation front!

Caetano apresentando a filha da Chiquita Bacana

O tempo passa e, o carnaval, que era uma manifestação popular, de rua, já está bem mais estruturado. Desde um bom tempo, desde o Estado Novo de Vargas, os cordões foram sendo “civilizados”, vão se transformando nas escolas de samba. As marchinhas vão deixando de existir e dão lugar ao samba enredo.

Pisando o chão devagarzinho, lá vem Dona Ivone Lara. A primeira mulher a compor um samba enredo. Apesar do talento nato, foi só depois de se aposentar (trabalhou por 37 anos como enfermeira, junto com a Dra Nise da Silveira, veja só!) que ela pode dedicar-se à musica.

Foi em 1965 que a escola Império Serrano desfilou com o samba “Os Cinco Bailes da História do Rio”.

A Rainha do Samba, a Primeira Dama do Samba, A Coisa Mais Bonita deste Mundo

Surgem as puxadoras de samba. Tia Surica na Portela, talvez foi a primeira, no carnaval de 1966, Elza Soares levou o samba do Salgueiro em 69, Marlene na Império Serrano em 72. Leci Brandão é uma personagem importante como compositora e puxadora de samba.

E as carnavalescas que, junto com Joãosinho Trinta, mudaram a história do carnaval. Maria Augusta e Rosa Magalhães. As duas atuaram em mais de uma escola e foram inovadoras e vencedoras de vários carnavais!

Chegamos nos anos 70, ditadura militar, censura, contra cultura, Mas e daí? Quem pode com o samba e o carnaval?

Na Bahia o povo toma conta da Praça Castro Alves e uma invenção lá dos anos 50, de Dodô e Osmar retoma com força o carnaval: os trios elétricos. Atrás deles só não vai que já morreu! Em cima deles foi Baby Consuelo com uma guitarra elétrica, e hoje vai a unânime Ivete Sangalo, personalidade feminina ícone de norte a sul do país. Outras mulheres comandam a multidão: Cláudia Leitte, Elba Ramalho.

Ivete e Banda Eva no trio elétrico em 1999

Conforme nos aproximamos dos tempos atuais, a história fica menos romântica, é o preço de construí-la. Olhar para o passado é sempre nostálgico e temos uma sensação (ilusória e errônea, claro) de que tudo era melhor naquela época. Olhar para o presente é sempre mais temerário, porque temos a nossa quota de responsabilidade com ele.

Mas o sexo “frágil” não foge à luta. Em Pernambuco as maestrinas Carmem Pontes e Lourdinha Nóbrega estão disputando o espaço das bandas de frevo. Veja e sinta a força do protagonismo feminino no frevo pernambucano!

As mulheres no frevo pernambucano

Grazzi Brasil puxando o samba da Paraíso da Tuiuti em 2018 (veja em 6:48).

Mulher “puxando” samba na Sapucaí

E a mangueira em 2020 tem samba composto por Manu da Cuíca.

Samba de mulher na Sapucaí

No final das contas, é fevereiro, é verão e é carnaval! Vamos ganhando nosso espaço, pisando esse chão devagarzinho, avisando que abram espaço porque vamos passar, levamos nossa boçalidade para todas as bossas e, existencialistas ou não, fazendo o que manda o nosso coração! Bom carnaval!

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