Cresci com duas irmãs, uma quatro anos mais velha e a outra um ano e quatro meses mais nova. A diferença de idade não nos impedia de brincar o tempo todo, as três juntas.

Até meus sete anos morávamos em uma casa com um quintal enorme (aos olhos de uma criança com a imaginação a mil), duas cachorras e várias árvores. Tinha uma edícula onde era a nossa “casinha” permanente. Ganhamos da avó móveis de madeira, uma mesinha com quatro cadeiras, um armário para as panelinhas e uma pia. Fazíamos “comidas” com terra, grama, pedras, tudo virava ingrediente ou projeto de ciências. Minha mãe descobriu que o cheiro horrível na “casinha” era de um peixe que dissecamos e descartamos na lixeira uns dias antes.  Não tivemos os brinquedos mais caros, os últimos lançamentos, mas isso nunca foi um problema. Brincávamos com bonecas, carrinhos, animais de pelúcia, tintas. Tudo virava uma aventura quando colocávamos um pouco de imaginação.

Montávamos construções de Lego, corríamos peladas no quintal, subíamos nas árvores, descíamos de tonquinha uma ladeira que tinha perto de casa… Algumas brincadeiras eram mais seguras que outras, mas o resultado era sempre o mesmo: diversão.

Hoje eu estou cursando Neurociência e Cognição na Universidade Federal do ABC e estudamos, entre outras coisas, o desenvolvimento cerebral e cognitivo do ser humano, e as atividades que estimulam e enriquecem este processo.

O ato de brincar está correlacionado com o desenvolvimento do córtex medial parietal e pré frontal e a junção temporo-parietal, áreas responsáveis pelo sentimento de empatia. Estudos mostram que estas áreas cerebrais tem menor volume em crianças privadas de brincar, por exemplo as que cresceram em orfanatos com rotinas restritas ou em países em guerra. Mas o curioso é que, se estas crianças passam a ter contato com brincadeiras e jogos, o cérebro retoma o desenvolvimento.

Isso mostra a importância do brincar e o impacto que pode ter na vida adulta e no desenvolvimento cognitivo.

Com o mercado de trabalho cada vez mais competitivo, a preocupação dos pais em garantir que seus filhos tenham um futuro de sucesso aumenta. Os pequenos frequentam atividades complementares (judô, natação, inglês…) desde cedo para que cresçam com habilidades e diferenciais, destacando-os dos demais.
Fernanda Monteiro, em seu livro Super Gênios, explora esse assunto. Explica como temos o costume de achar que brincadeiras são apenas para o tempo de lazer, para preencher aquele tempinho entre um compromisso e outro. Mas na verdade deveria ser ao contrário: o compromisso deveria ser com o brincar

Para Vigotski, “(…) a brincadeira cria uma zona de desenvolvimento iminente na criança. Na brincadeira, a criança está sempre acima da média da sua idade, acima de seu comportamento cotidiano; na brincadeira, é como se a criança estivesse numa altura equivalente a uma cabeça acima da sua própria altura. A brincadeira em forma condensada contém em si, como na mágica de uma lente de aumento, todas as tendências do desenvolvimento; ela parece tentar dar um salto acima do seu comportamento comum”.

Para a criança, o que importa é brincar. Independente do local e do brinquedo, ela precisa exercitar a imaginação. Isso ajuda a desenvolver sua fala, pensamentos e emoções, as chamadas funções psicológicas superiores. É nas brincadeiras de “faz de conta” que os pequenos conseguem assumir papéis e responsabilidades dos adultos que observam, imitando seu comportamento, colocando-se no seu lugar.

Maria Montessori foi precursora neste entendimento e, de acordo com sua filosofia, a criança deve ter as coisas ao seu alcance, tudo próximo ao chão. Deste jeito os pequenos conseguem criar autonomia e se desenvolver de acordo com suas necessidades e no seu próprio tempo. Armários baixinhos para que elas tenham acesso aos brinquedos e roupas, móveis como camas, mesinhas e cadeiras que permitam subir e descer sem muito auxílio, tudo isso estimula o desenvolvimento da autoconfiança e da autonomia.

O brincar é valioso sozinho ou acompanhado. Brincando com outras crianças, aprende a dividir, trabalhar em equipe, colocar a sua opinião e escutar a do outro, conhecer-se como indivíduo.

MONTEIRO, F. Super Gênios: Os cinco pilares da estimulação infantil capazes de gerar pessoas extraordinárias. Curitiba: Stimullus, 2018.
A  IMPORTÂNCIA DO BRINCAR NO DESENVOLVIMENTO DA CRIANÇA. Disponível em: <http://www.psicologia.pt/artigos/ver_opiniao.php?a-importancia-do-brincar-no-desenvolvimento-da-crianca&codigo=AOP0394> Acesso em: 3. Jun. 2019.
BRINCADEIRAS SÃO FUNDAMENTAIS PARA O DESENVOLVIMENTO DA CRIANÇA. Disponível em: <https://www.revistaeducacao.com.br/brincadeira-fundamental-desenvolvimento-crianca/> Acesso em: 3. Jun. 2019.
LAR MONTESSORI. Disponível em: <https://larmontessori.com/o-metodo/>. Acesso em: 4. Jun. 2019.

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