A celebração do equinócio

pascoa

Minhas filhas lembram, e com saudades, dos ninhos de ovos de chocolate, das patinhas de farinha pela casa, das pistas para encontrar os ovos escondidos. Sim, tudo parte da infância, tudo necessário para termos um passado, construirmos nossa história. Eu lembro também da minha infância. Dos ovinhos pintados pela minha tia-avó, antes do surto dos ovos de chocolate com recheio de brinquedo.

Válido, validíssimo. A vida precisa ser alegre. Precisamos das memórias. E as crianças precisam da fantasia. Senão fica tudo muito chato.

Mas a necessidade da fantasia que as crianças têm, não precisa apagar o discernimento do adulto.

Caiu na minha rede um resumo do livro de Leonard Shlain, The Alphabet Versus the Goddess: The Conflict Between Word and Image. E esta foi uma leitura que causou um impacto muito grande na forma como eu vejo as coisas. Não porque tenha mudado minha perspectiva, mas porque esclareceu. Embora controverso, para mim fez todo o sentido. O autor considera que a escrita favorece características de pensamento masculino e que a sua adoção acabou por prejudicar o pensamento feminino. A mente feminina, mais imagética, teria preferido outras formas de codificação.

E um pequeno trecho que li chamou a atenção por abranger dois aspectos que considero importantes para reflexão:

O Velho Testamento foi o primeiro trabalho escrito com o alfabeto a influenciar as eras futuras. Atestando sua seriedade, multidões ainda o lêem, três mil anos passados. As palavras em suas páginas ancoram três poderosas religiões: judaísmo, cristianismo e islamismo. Cada uma é um exemplo de patriarcado. Cada religião monoteísta tem uma deidade masculina, sem imagem, cuja autoridade brilha sobre seu mundo revelado, santificado na forma escrita. Conceber uma divindade que não tem uma imagem concreta prepara o modo como o pensamento abstrato inevitavelmente leva aos códigos de lei, filosofia dualística e ciência objetiva, a assinatura tríade da cultura ocidental. Eu proponho que o impacto profundo destas antigas escrituras no desenvolvimento do ocidente dependeram tanto do fato de serem escritas em alfabeto quanto das lições morais que elas contém.

Assim, a soberania das divindades masculinas se estabelece e ocupa o lugar das festas pagãs, que veneravam principalmente as deusas. A Páscoa, por sinal, embora tenha origens não muito claras, acredita-se, celebrava o equinócio de primavera no hemisfério norte. Associada com a deusa da fertilidade Ishtar, ou Astarote, Eostre, Easter, a deusa da primavera, e estava relacionada a rituais de cunho sexual, simbolizado pelo coelho, e de fertilidade, simbolizado pelo ovo.

E a data de celebrar a deusa passa a ter novo significado entre os romanos, torna-se a data da passagem ou da libertação do povo judaico e depois a data da ressurreição do Cristo. Extingue-se a celebração dos ciclos, da vida, da sexualidade, objetos do pensamento feminino e a humanidade passa a celebrar aspectos ligados essencialmente ao universo masculino.

Restou ainda alguma deusa dentro de nós?

Marina

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